terça-feira, 29 de março de 2011

A cidade desintegrada

A maior concentração urbana brasileira segue crescendo à margem de uma política urbanística capaz de responder a uma pergunta essencial: qual é a cidade que desejamos?
Pixmann/ImageZoo-Corbis
Seja por falta de interesse, seja por incompetência dos gestores públicos, São Paulo se move por geração espontânea. É uma cidade que constrói a exclusão em vez de integrar.
Com isso não me refiro às favelas e os problemas da cidade informal. Critico, em específico, o modelo imposto a partir dos escritórios das construtoras com o beneplácito do poder público.
As construtoras modelam o padrão de consumo de moradias, de convivência familiar, de relação com os vizinhos e com a própria cidade. Quase pior, me parece, mantêm o monopólio da transformação da paisagem. Convenhamos, é muita responsabilidade para quem, no fim das contas, pouco se importa com todos estes aspectos. Em vez disso, quer saber da rentabilidade de seu empreendimento.
Toda esta introdução é para comentar uma reportagem do domingo passado, 27 de março,  publicada pelo Estado de S.Paulo. Falava dos novos empreendimentos residenciais no centro da cidade, projetados sobre o conceito de “condomínios-clube”. Pelo que pude entender, uma espécie de American Way of Life empilhada em forma de torres. Confesso não ter visto o projeto, mas já imagino: arquitetura neoclássica ou de inspiração mediterrânea com um nome italiano qualquer: Piazza Roma, Villagio di Venezia... Nada mais distante do que se faria na Europa.
Repórter que se preze, porém, deve ser independente, polêmico. Este gastou alguns parágrafos para criticar a imagem bucólica que as construtoras fazem do centro, divulgando seu empreendimento com fotos antigas do Mercado Municipal, Estação da Luz, Pinacoteca. Mas, hoje em dia, quem vai querer morar no centro, rodeado de violência, lixo, “nóia”?
O construtor, entretanto, tem a resposta na ponta da língua. Diz que a falta de segurança no centro ainda é grande, mas que o padrão condomínio-clube ajuda a driblar esse problema. "Como os prédios têm tudo o que se precisa lá dentro, a família pode ficar fechada no condomínio que não tem problema." 
Está claro que, em vez de integrar essas novas construções à cidade, a preocupação é justamente a contrária. Apostar por ilhas de irrealidade, feudos murados com seus próprios impostos e regras, com a assepsia que o poder público não é capaz de oferecer ao modelo de vida classe média. De espaço de convivência e coesão social, a rua virou simples via de passagem. Poderíamos muito bem chamar todo este processo de Urbanismo Shopping Center ou Arquitetura da Desintegração. O que soa melhor?
As constantes críticas dos paulistanos à cidade mostram que, certamente, está não é a São Paulo que seus cidadãos desejam. Mas, conscientemente ou não, é o modelo que os paulistanos consolidam, apóiam, portanto, por meio de seus hábitos e estilo de vida.