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Como, entretanto, democracia é questão de princípios, é preciso engolir o espinho a seco e aceitar sua presença no Congresso. Afinal, tanta polêmica só indica que seus argumentos fáceis, passionais e rasos ainda têm eco em setores da sociedade que se sentem representados por este milico nostálgico. Bolsonaro, Tiririca, Maluf, Collor, Sarney são só alguns poucos exemplos dos efeitos colaterais da democracia que (dos males o menor) sustentamos e defendemos. Critiquemos o Brasil, mas mesmo as democracias mais avançadas têm seus próprios personagens de comédia sessão da tarde.
Por outro lado, a contra-reação em defesa do deputado fez uso de argumentos questionáveis. E é isso que eu prefiro apontar aqui. Como é de praxe nestes casos, levantaram a bandeira da liberdade de expressão, cláusula pétrea assegurada pelo Artigo 5º da Constituição. Para alguém que defende a Ditadura Militar, soa ridículo valer-se de um direito só estabelecido após a derrocada dos generais. Porém, coerência não é algo que esperamos do Sr. Bolsonaro.
Sou o primeiro a defender a liberdade de opinião, mas tenho consciência de que todo cidadão, além dos direitos... tem deveres (ressalto esta palavra porque é fácil esquecê-la). Em resumo, todos podem falar o que quiserem desde que se responsabilizem civil e criminalmente pelo conteúdo. Por isso, é no mínimo deplorável usar a liberdade de opinião como escudo para pregar o ódio contra negros e homossexuais, defender a violência como forma de educação, a tortura como forma de ordem social, e o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso como protesto às privatizações.
Não me compete dizer se o deputado cometeu um crime ou não. Embora me pareça que, por princípio, o limite da liberdade democrática termine quando atenta a si mesma. De qualquer maneira, um deputado que se vangloria de ser “macho” não terá problemas em superar a forte reação que surgiu na internet, entre negros, gays e no próprio parlamento. Liberdade de expressão vale para todos, não?
A grande bobagem desta discussão é desviar o foco, mais uma vez, à questão homossexual. O deputado atribui o comportamento homossexual a uma falha de educação, libertinagem, promiscuidade, falta de “porrada”. São argumentos tão simplórios e ignorantes que dá preguiça de contestar. Recomendo leituras médicas, psicológicas ou simples observação da realidade para quem ainda tem dúvidas, se é que os neurônios permitem pensamentos um pouco mais complexos.
Por outro lado, isso sim é inaceitável, a ofensa gratuita e a devassa que se promove na intimidade de homossexuais. Sinto muito Sr. Bolsonaro, mas seja na cabine do avião ou nos hospitais, você pode ter sido atendido não apenas por cotistas, mas também por gays, sem nem ter se dado conta. Afinal, a diferença entre uns e outros se resume ao que acontece embaixo dos lençóis e entre quatro paredes.
Tanta perseguição me parece uma curiosidade obsessiva, um desejo reprimido que vem à tona com violência e muito bem explorado por certa classe politiquera. Ninguém precisa gostar de gays, da mesma forma que somos obrigados a tolerar o Sr. Bolsonaro. Mas, em um Estado plural e democrático, as sentinelas da moral e bons costumes deveriam ocupar-se com suas próprias vidas e deixar os demais em paz.
Para concluir, aprendi alguns princípios na faculdade de jornalismo nos quais ainda tento me basear. Corro o risco de soar inocente, mas antes de me preocupar com a polêmica viral como um indicador de êxito de meu trabalho, acredito no critério da relevância social e do interesse coletivo. É inegável que os meios de comunicação de massa têm um poder às mãos. Este poder se refere à possibilidade de decidir que discussões, idéias e personagens vêm a público. Neste caso, em específico, me custa entender em que toda esta polêmica contribui para o debate construtivo da democracia. Afinal, o CQC não sabia que esperar de uma entrevista com Jair Bolsonaro?


