terça-feira, 30 de novembro de 2010

Deus é machista, o Papa não!

Há quem se contente com migalhas. Somente assim para entender a comemoração de ativistas antiaids a respeito das palavras do Papa Bento XVI sobre a camisinha. As declarações recentes foram publicadas no livro “Luz do Mundo: o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”, do alemão Peter Seewald, jornalista que teve a paciência de escutar tudo o que pensa o velhinho em 20 horas de entrevista.
Muita gente enxergou seu posicionamento como um sinal de abertura da Igreja. Puro otimismo! Quem se dá ao trabalho de fazer uma exaustiva análise sintática em tão intrincado texto pode finalmente concluir que... sim, o Vaticano entendeu que a camisinha existe. E mais, que pode servir para evitar o HIV em casos extremos, como na prostituição masculina (sobre este ponto, há suspeitas de erros de gênero na tradução, assim que não consideremos este mais um ataque homofóbico!).
Por outro lado, a fórmula não muda. Sexo só após o casamento e sem mais escapadelas! É a tal da sexualidade humanizada e responsável a que se refere o líder da Igreja Católica. Em outras palavras, a expressão do desejo sexual continua sendo uma ofensa ao sentimento cristão.
Mas em meio a esta discussão infértil e sem novidade, passou praticamente despercebida outra posição tão incoerente quanto retrógrada. O alvo desta vez foi a mulher.
Sou daqueles que acredita que o movimento feminista cumpriu seu papel. Minha geração cresceu rodeada de mulheres em posições de destaque e aceita sem conflitos dividir as tarefas em casa ou no trabalho. É bastante provável que a minha seja uma percepção limitada e até muito masculina. Mas é justamente por ela que me choca a explicação do Papa sobre o veto à consagração feminina.
Segundo Bento XVI, uma Igreja exclusivamente masculina é uma exigência divina, que desautoriza expressamente a ordenação de mulheres. E justifica: "[...] nós não estamos dizendo que não queremos fazê-lo [ordenar mulheres]. O Senhor nos deu a Igreja na forma de doze [homens apóstolos] e, como seus sucessores, com os bispos e seus presbíteros, os padres. Essa forma de Igreja não é algo que nós mesmos produzimos. É como Ele constituiu a Igreja.
Está claro? Machista aqui é Deus, não a Igreja. Aliás, qual é mesmo o sexo de Deus?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O privilégio gay

Jordan Adams/Corbis
Não é nenhuma novidade a intolerância obsessiva de grupos religiosos contra a homossexualidade. Mas um manifesto público recente causou um mal-estar na comunidade acadêmica.
Ao endossar o  manifesto presbiteriano sobre a homofobia e o aborto, o reverendo Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo), posiciona-se, de forma intransigente e pouco democrática, como o resguardo moral da universidade.
O motivador destas declarações é o PL 5003/2001 da dep. Iara Bernardi (PT-SP). Aprovado pela Câmara dos Deputados em 2006 e encaminhado ao Senado Federal, o projeto de lei inclui os termos “orientação sexual” e “identidade de gênero” na mesma legislação que pune a discriminação e o preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional e gênero.
Ressalto em negrita o termo religião para evidenciar a ironia: os presbiterianos negam a outros a mesma proteção legal que o Estado oferece ao sentimento de religiosidade cristão. O argumento que justifica tal manifestação é que a lei fere o direito de expressão da igreja e faz dos homossexuais um grupo privilegiado.
Gostaria de lembrar que, desde 2001, o Estado de SP tem sua própria lei que pune a discriminação pela orientação sexual. E nem por isso, cristãos foram perseguidos ou tolhidos de seu direito de disseminar a intolerância. De todo modo, é extremamente difícil argumentar com o dogma religioso. Principalmente aquele pautado em interpretações literais da Bíblia, sempre citadas na hora de justificar o próprio preconceito. Quero dizer que, se o homem nasceu de Adão e Eva e um dia todos os animais da Terra couberam numa Arca, então é provável que nenhum cristão considere a mulher um ser igual ao homem, faça uso de anticoncepcionais ou tenha sexo antes do casamento.
Como no meu mundo, porém, é a Terra que gira em torno do Sol e a Justiça resolve melhor meus problemas que a lei mosaica do “olho por olho, dente por dente”, fiquei imaginando o constrangimento dos acadêmicos do Mackenzie com o posicionamento do seu chanceler.
Há séculos, a ciência e a religião se separaram. E, apesar de algumas tentativas frustradas, a reconciliação parece distante. A declaração do reverendo Nicodemos Gomes Lopes, em nome da Universidade, simplesmente ignora o papel do Mackenzie na evolução da ciência e joga no lixo os esforços de tantos pesquisadores comprometidos com o conhecimento. O reverendo esquece que o fato de o Mackenzie ser uma universidade cristã e confessional não lhe outorga o direito de utilizar a Bíblia como método científico. Se assim fosse, use o nome que quiser, mas não de Universidade.
Foi, por exemplo, a evolução do conhecimento que constatou que a homossexualidade é apenas mais uma forma de expressão sexual humana. Não é por acaso que, desde 1993, a OMS (Organização Mundial de Saúde) excluiu o termo “homossexualismo” de sua Classificação Internacional de Doenças. O departamento de psicologia de sua Universidade, reconhecido pela formação de qualidade que oferece, pode dar mais informações ao reverendo.
O mais triste é que declarações como estas coincidam com episódios como o que assistimos recentemente na av. Paulista, de ataques gratuitos a jovens por possível motivação homofóbica. Por mais que o reverendo pregue o respeito a todas as pessoas, “independentemente de suas escolhas sexuais”  deve entender que pregações ferozes como esta ecoam na sociedade e contribuem com o ódio.
A homossexualidade é um fato e o papel da igreja não precisa ser o de aceitar. Mas promover a convivência pacífica. Cada um com suas próprias crenças e valores, mas aceitando que a sociedade é plural. Infelizmente, a atuação da igreja é a de querer ganhar no cabresto aquilo que já é incapaz de conquistar com a palavra.

Nos limites




Viajar e conhecer o mundo: quem não quer? Eu, porém, sempre tive o pé atrás com o tipo “turista”. Sabe aquele de papete com meia, câmera no pescoço e garrafinha de água na cintura? Que horror! Minha idéia de turismo sempre foi a de integração, sentir o lugar na veia, ver o povão, comparar costumes e escutar outra língua.
Quero dizer que um mês de férias não me bastariam. E foi por isso que coloquei minha trouxinha nas costas e deixei o Brasil. 
Não podia imaginar as presepadas que arranjaria, embora soubesse que viriam muitas pela frente. Primeiro aportei em Londres. Lá trabalhei por qualquer trocado, dormi em pulgueiros e  fui feliz.
De vez em quando, pegava um turno extra de trabalho e comprava um vôo baratinho. Aproveitava para conhecer os vizinhos mais próximos. Até que um dia visitei Barcelona e me apaixonei por um par de olhos verdes que viviam por aqui.
Foi assim, bem resumido, que decidi fazer da Espanha (ou apenas Catalunha, como muitos preferem) minha nova casa. Por quanto tempo, não sabia. Mas, depois de dois anos na terra da Rainha, uma experiência em um país quente e latino me animava. Também me excitava a idéia de viver uma história de amor globalizada. Somos todos românticos, no fim das contas!
Decisão tomada, era hora de fazer as malas. Fácil, não? Nem um pouco! Fronteiras e sonhos nem sempre andam juntos. E papéis não dão conta de explicar tudo o que somos, sonhamos e amamos.
Por sorte, sou paciente. Ou teimoso? Que o digam meus amigos. De qualquer forma, tenho prazer em colecionar histórias. Com ou sem final feliz, não importa. Mas sempre com uma lição a aprender. 
Neste caso, conheci de perto alguns dos limites que os homens impõem. Físicas, sociais ou psicológicas, mas sempre barreiras, que excluem com a desculpa de proteger. Sem alongar mais a história, consegui cruzar essa barreira. Mas, do lado de dentro, ainda posso enxergar tantos outros que, com esperança ou resignação, continuam apartados.