Há quem se contente com migalhas. Somente assim para entender a comemoração de ativistas antiaids a respeito das palavras do Papa Bento XVI sobre a camisinha. As declarações recentes foram publicadas no livro “Luz do Mundo: o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”, do alemão Peter Seewald, jornalista que teve a paciência de escutar tudo o que pensa o velhinho em 20 horas de entrevista.
Muita gente enxergou seu posicionamento como um sinal de abertura da Igreja. Puro otimismo! Quem se dá ao trabalho de fazer uma exaustiva análise sintática em tão intrincado texto pode finalmente concluir que... sim, o Vaticano entendeu que a camisinha existe. E mais, que pode servir para evitar o HIV em casos extremos, como na prostituição masculina (sobre este ponto, há suspeitas de erros de gênero na tradução, assim que não consideremos este mais um ataque homofóbico!).
Por outro lado, a fórmula não muda. Sexo só após o casamento e sem mais escapadelas! É a tal da sexualidade humanizada e responsável a que se refere o líder da Igreja Católica. Em outras palavras, a expressão do desejo sexual continua sendo uma ofensa ao sentimento cristão.
Mas em meio a esta discussão infértil e sem novidade, passou praticamente despercebida outra posição tão incoerente quanto retrógrada. O alvo desta vez foi a mulher.
Sou daqueles que acredita que o movimento feminista cumpriu seu papel. Minha geração cresceu rodeada de mulheres em posições de destaque e aceita sem conflitos dividir as tarefas em casa ou no trabalho. É bastante provável que a minha seja uma percepção limitada e até muito masculina. Mas é justamente por ela que me choca a explicação do Papa sobre o veto à consagração feminina.
Segundo Bento XVI, uma Igreja exclusivamente masculina é uma exigência divina, que desautoriza expressamente a ordenação de mulheres. E justifica: "[...] nós não estamos dizendo que não queremos fazê-lo [ordenar mulheres]. O Senhor nos deu a Igreja na forma de doze [homens apóstolos] e, como seus sucessores, com os bispos e seus presbíteros, os padres. Essa forma de Igreja não é algo que nós mesmos produzimos. É como Ele constituiu a Igreja.”
Está claro? Machista aqui é Deus, não a Igreja. Aliás, qual é mesmo o sexo de Deus?
