Admiro o senso prático dos que preferem se molhar para dar alguns passos, do que aqueles que só elaboram discursos debaixo do guarda-chuva. Mas é verdade que o jogo político, muitas vezes, torna os limites ético e ideológico extremamente tênues.
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| Sputnik: postal comemorativo/CORBIS |
Deixe-me contextualizar para ser justo: com esta alusão a um mundo bipolar, de comunismo contra capitalismo, Obama quis incitar o espírito competitivo e inovador dos americanos como forma de seguir a liderança global e superar a maior crise econômica desde 1929.
Por outro lado, está claro que a comparação não é gratuita: a emergência chinesa é um calo no sapato de todo o Ocidente. Depois de 20 anos de reinado absoluto dos EUA sobre a geopolítica mundial, de repente surge outra grande potencia comunista ameaçar não apenas a posição hegemônica norte-americana, mas também sua tão preciosa cartilha do livre mercado. Afinal, enquanto as grandes economias ocidentais seguem descendo pra lá dos sete palmos, a China não pega nem resfriado.
Claro que o comunismo chinês não tem nada do exaurido modelo econômico da antiga potência soviética. Ao contrário, se parece bem mais a uma sociedade de consumo como a norte-americana. Mas, diferente deste último, que crê na auto-regulação dos mercados, o Estado chinês mantém uma mão pesada sobre as conduções da sua economia, sobretudo para torná-la o mais competitiva possível.
E como o país atinge seus objetivos? Enquanto as democracia impõem um longo e muitas vezes oneroso caminho, a ditadura chinesa promove o aval direto a todas as decisões do partido. “Time’s Money”, todos sabem bem. Soma-se a isso a mão-de-obra abundante e de baixo custo, regulamentações laborais e ambientais pouco exigentes e intervenção direta sobre o valor de sua moeda, desvalorizada artificialmente. Ou seja, os preços dos produtos chineses industrializados são imbatíveis. Mas para ser vantajoso ao país, requer uma produção a larguíssima escala.
A reedição do “choque” capitalismo x comunismo do século XXI é muito contraditória. O Ocidente corre desesperadamente atrás da China numa tentativa de desafogar suas frágeis economias. Não importa se, politicamente, o país está a milhas de distância do estado de bem-estar e de direito alcançado pelos países ocidentais avançados. Importa menos ainda que a fuga de empresas em busca de condições produtivas mais competitivas cause desindustrialização e desemprego em seus países de origem. Nesta inversão de fluxos em direção a leste, é inevitável ceder poder político à nova potencia. E mesmo que incomode, nenhum governante é insano o suficiente para intervir no processo.
A crise de 2008 poderia ter sido uma oportunidade de se repensar seriamente o modelo econômico ocidental, menos dependente do consumo frenético e mais sustentável. Mas nem mesmo a grande esperança da política atual, o presidente Obama, tem poder ou visão para plantar mudanças substanciais. Ele pode até querer levantar os brios nacionalistas e competitivos dos norte-americanos, mas a fórmula para superar a crise é a de sempre: voltar a crescer. Crescer em nome de um injustificado progresso, que ainda hoje não foi capaz de tornar o mundo mais justo, e que começa a passar uma conta muito cara a nossa geração.

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