Depois
de um longo e estressante dia de trabalho, você chega em casa, tarde da noite,
esfomeado, em busca de qualquer pedaço de pão velho. Claro que você não teve
tempo de abastecer a dispensa no fim de semana; não resta nem um desprezível
pacotinho de macarrão instantâneo. Pedir uma pizza a estas horas seria uma
espera torturante. Na geladeira, porém, uma promessa de salvação: um pote de
iogurte reina sozinho e absoluto. A que dia estamos mesmo? Dez! Dez dias atrás
era seu prazo máximo de consumo, segundo recomendação do fabricante. Você arrasta
a cadeira de modo lento, mas firme. Inconformado. Senta-se pensativo,
dialogando com o iogurte. Isso não é vida! Algo precisa mudar, definitivamente.
Mas
o iogurte te encara com olhar desafiador. Creio ou não no sistema? Devoro este
ninho de bactérias ou me resigno a dormir de barriga vazia? Este maldito
fabricante, afinal, está pensando em minha saúde ou apressando minha próxima
visita ao supermercado? Quem, maldições, define a data de validade das coisas?
Queremos
acreditar que a indústria alimentícia seja regida por estrito protocolo
sanitário, pensando no bem dos cidadãos. Porém, sem dar-nos conta, outras
indústrias trabalham com a ideia de data de validade. É o que mostra o
documentário: “Comprar, jogar, comprar”, uma produção da Televisão
Espanhola, Televisão de Catalunha e Arte France. A versão em espanhol do vídeo pode ser vista a seguir:
Comprar, tirar, comprar from anonspain on Vimeo.
O
vídeo traz uma interessante pesquisa sobre a “obsolescência programada”. Escapando
à ideia de que qualidade consiste em durabilidade, a obsolescência programada busca
desenvolver produtos com uma duração limitada, para forçar o consumidor a
voltar às lojas no menor período possível de tempo.
Segundo
o documentário, tal conceito nasceu no início do século XX, a partir do consenso
entre fabricantes de lâmpadas de todo o mundo. O primeiro cartel de que se tem
notícias uniu-se para determinar um limite máximo de horas que uma lâmpada
poderia funcionar.
A
partir de então, diversos produtos foram repensados e engenheiros passaram a se
dedicar a tornar suas criações... piores! Foi o caso, por exemplo, das meias de
nylon – boas demais, que não rasgavam nunca. Hoje em dia, é também o caso de
diversos eletroeletrônicos: computadores, televisores, celulares, microondas
etc., cujo conserto é sempre mais caro que a aquisição de um novo.
Isso
fica patente quando pensamos que, em menos de vinte anos, a profissão de
técnico em eletrônica praticamente deixou de existir. Entretanto, não significa
que a indústria suprimiu empregos. Ao contrário: do consumo depende o
crescimento da produção e, como consequência, da geração de empregos. Nos anos
que se seguiram ao crash da Bolsa de Nova York, em 1929, uma das ideias para
superar o desemprego e voltar a fazer a economia girar era justamente sair às
compras. Era o início da sociedade de consumo, impulsionada pelo imaginário do “sonho
americano”.
Parece
perfeito, se não fosse que os recursos do mundo são limitados, se as
estratégias de marketing não se ocupassem em massificar a cultura por todas as
partes, se o valor das pessoas não fosse banalmente definido por sua capacidade
de consumir.
Vivemos
em uma bolha com um equilíbrio extremamente delicado. Sentimo-nos lesados pelos
grandes fabricantes, mas assimilamos hipocritamente a cultura consumista. E nem
mesmo diante de uma crise econômica tão forte, com índices de desemprego tão
altos como os que enfrenta a Europa atualmente, somos capazes de reagir. Nem
sequer nos damos ao trabalho de pensar em modelos alternativos e sustentáveis.
Algumas ideias, infelizmente, parecem não ter prazo de validade.
Um comentário:
gosto muito da idea e da sua divulgação. eu procuro alongar os ciclos de vida, é só esso ja precisa se consciênciar freqüentemente (e não fallo do iogurte)
wicked text
matthieu
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