quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O prazo das ideias


Depois de um longo e estressante dia de trabalho, você chega em casa, tarde da noite, esfomeado, em busca de qualquer pedaço de pão velho. Claro que você não teve tempo de abastecer a dispensa no fim de semana; não resta nem um desprezível pacotinho de macarrão instantâneo. Pedir uma pizza a estas horas seria uma espera torturante. Na geladeira, porém, uma promessa de salvação: um pote de iogurte reina sozinho e absoluto. A que dia estamos mesmo? Dez! Dez dias atrás era seu prazo máximo de consumo, segundo recomendação do fabricante. Você arrasta a cadeira de modo lento, mas firme. Inconformado. Senta-se pensativo, dialogando com o iogurte. Isso não é vida! Algo precisa mudar, definitivamente.

Mas o iogurte te encara com olhar desafiador. Creio ou não no sistema? Devoro este ninho de bactérias ou me resigno a dormir de barriga vazia? Este maldito fabricante, afinal, está pensando em minha saúde ou apressando minha próxima visita ao supermercado? Quem, maldições, define a data de validade das coisas?

Queremos acreditar que a indústria alimentícia seja regida por estrito protocolo sanitário, pensando no bem dos cidadãos. Porém, sem dar-nos conta, outras indústrias trabalham com a ideia de data de validade. É o que mostra o documentário: “Comprar, jogar, comprar”, uma produção da Televisão Espanhola, Televisão de Catalunha e Arte France. A versão em espanhol do vídeo pode ser vista a seguir:


Comprar, tirar, comprar from anonspain on Vimeo.

O vídeo traz uma interessante pesquisa sobre a “obsolescência programada”. Escapando à ideia de que qualidade consiste em durabilidade, a obsolescência programada busca desenvolver produtos com uma duração limitada, para forçar o consumidor a voltar às lojas no menor período possível de tempo.

Segundo o documentário, tal conceito nasceu no início do século XX, a partir do consenso entre fabricantes de lâmpadas de todo o mundo. O primeiro cartel de que se tem notícias uniu-se para determinar um limite máximo de horas que uma lâmpada poderia funcionar.

A partir de então, diversos produtos foram repensados e engenheiros passaram a se dedicar a tornar suas criações... piores! Foi o caso, por exemplo, das meias de nylon – boas demais, que não rasgavam nunca. Hoje em dia, é também o caso de diversos eletroeletrônicos: computadores, televisores, celulares, microondas etc., cujo conserto é sempre mais caro que a aquisição de um novo.

Isso fica patente quando pensamos que, em menos de vinte anos, a profissão de técnico em eletrônica praticamente deixou de existir. Entretanto, não significa que a indústria suprimiu empregos. Ao contrário: do consumo depende o crescimento da produção e, como consequência, da geração de empregos. Nos anos que se seguiram ao crash da Bolsa de Nova York, em 1929, uma das ideias para superar o desemprego e voltar a fazer a economia girar era justamente sair às compras. Era o início da sociedade de consumo, impulsionada pelo imaginário do “sonho americano”.

Parece perfeito, se não fosse que os recursos do mundo são limitados, se as estratégias de marketing não se ocupassem em massificar a cultura por todas as partes, se o valor das pessoas não fosse banalmente definido por sua capacidade de consumir.

Vivemos em uma bolha com um equilíbrio extremamente delicado. Sentimo-nos lesados pelos grandes fabricantes, mas assimilamos hipocritamente a cultura consumista. E nem mesmo diante de uma crise econômica tão forte, com índices de desemprego tão altos como os que enfrenta a Europa atualmente, somos capazes de reagir. Nem sequer nos damos ao trabalho de pensar em modelos alternativos e sustentáveis. Algumas ideias, infelizmente, parecem não ter prazo de validade.

Após uma sessão de desalienação, você é tomado por ímpetos subversivos. Decide tomar o iogurte em uma só golada. Lambe a tampa de alumínio e até o restinho que a colher não conseguiu recolher no fundo do pote. Vai para a cama com o coração acelerado. Se uma baita diarreia não me deixar em casa por um dia –um ínfimo e merecido descanso– amanhã mesmo escrevei ao Procom. Esses fabricantes querem controlar nossas almas, estômagos e bolsos, mas juro que um dia viro hippie. 

Um comentário:

Anônimo disse...

gosto muito da idea e da sua divulgação. eu procuro alongar os ciclos de vida, é só esso ja precisa se consciênciar freqüentemente (e não fallo do iogurte)

wicked text
matthieu